Se Hunter Thompson tivesse escrito um livro sobre raves, estas entorpecentes festas ao ar livre não seriam tão bem descritas quanto em ‘Festa Infinita’. Primeiro porque o criador do jornalismo Gonzo se entupiria de todas as drogas inimagináveis em cada visita ao seu objeto de estudo. Segundo por que grande parte da apuração seria posta em segundo plano e teríamos literalmente a sensação de estar lendo um livro sobre um ‘Universo Paralelo’.

Então apreciemos a obra do jornalista literário Tomás Chiaverini. Escrever sobre um assunto tão complexo quanto o que acontece nas festas raves é uma linha tênue entre fazer apologia e cair no moralismo. Vide o tão esperado filme ‘Paraísos Artifíciais’, que de tão artificial não agradou nem aos críticos de cinema e muito menos aos frequentadores destas festas.

O jornalismo literário é uma especialização do jornalismo feita com a arte da literatura. Como estudante da profissão, li diversos destes livros que me inspiraram e tornaram minhas reportagens melhores. No entanto, foi a primeira vez que fiquei tão empolgado quanto ao tema de um livro reportagem. Para meu deleite, o livro me surpreendeu mais do que eu esperava.

O trabalho de apuração do jovem Tomás possibilitou uma atmosfera única para este livro. Entre histórias excitantes de produtores de festas e depoimentos de djs como Rica Amaral e Dimitri Rugiero, o livro conta com detalhes os bastidores destas festas que chegam a durar uma semana. Sem nunca ter pisado em uma rave, Tomás passou meses frequentando os maiores eventos eletrônicos ao ar livre do país, como a Trancendence e o Universo Paralello.

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Análises sociológicas e explicações científicas são colocados em cheque para explicar os motivos que levam milhares de pessoas a se deslocarem para estes locais. “…as festas em geral são um espaço de quebra de regras. Os ravers se sentem à vontade para ingerir quantidades hospitalares de entorpecentes e mergulhar em horas de transe dançante…”, revela. As observações médicas a cerca das drogas não impediu com que o próprio jornalista se aventurasse em uma viagem a base de MDMA pela primeira vez; na qual expôs todas as sensações que teve a 10 metros das caixas de som.

Enquanto a grande mídia associa as festas raves ao abuso de drogas, ao desvio moral e a dezenas de fatores negativos, um jovem jornalista resolveu descobrir de fato do que se trata este universo. Não vou cair na ingenuidade de falar que foi 100% imparcial ou objetivo (nenhum jornalista deve se prestar a ser) mas retrata com clareza uma realidade que para muitos ainda é a de um ‘universo paralelo’.